Sobre Escultura
O menino salvo pelo rio
Por: Delano Brandelli Pieta
29/07/08



João Bez Batti, o senhor da escultura em basalto, lapida seus sonhos na pedra
“Eu fui salvo pelo rio”. Com essa frase, o escultor João Bez Batti resume a importância dos rios Taquari e Das Antas em sua vida. Um menino salvo da pobreza cultural que cercava o lugar onde vivia pelo leito pedregoso de algumas artérias do Rio Grande do Sul. O menino João, resgatado do limbo de uma vida sem arte pelo seixo encontrado no rio. “Os espíritos do rio estavam me observando e disseram: ‘nós vamos te conduzir na vida’. A minha vida foi um milagre”.
A relação com as pedras é feita de um sentimento de interdependência. Elas se mostram para o escultor. Em troca, ele as esculpe e as imortaliza. Sua pesquisa com o basalto é notória. Sempre que alguma grande construção tinha início, lá estava ele, em busca da matéria-prima que materializaria seus sonhos.
Se as pedras são o destino de seus pensamentos, é a noite que lhe sopra no ouvido quais curvas elas terão. É no breu que nasce o desenho. Depois, um breve descanso, três horas de sono por noite. A ânsia de criar, mais e mais, forjou o destino do artista. “Existe um caminho para voltar à infância. Eu tenho o meu caminho. É o rio.”, conta Bez Batti. Quando João pensa nas pedras e nas formas que a noite lhe cochicha, podem ter certeza: é o momento onde o menino está presente.
O processo é lento, cuidadoso. Dos desenhos, a idéia é passada para a argila e depois para o gesso. Feita a maquete, é hora de a pedra receber o seu toque. Nunca uma pedra foi abandonada. O trabalho é muito demorado e oneroso para dar-se ao luxo de dispensar alguma criação. “Se eu fosse pensar no tempo que levo para fazer uma escultura, não seria escultor”. Mesmo que a profusão de idéias permita a ele uma quantidade enorme de esculturas novas. “Eu estou sempre pensando uma nova escultura. É o resultado da minha fantasia. Mas eu tenho que olhar todo o dia para as pedras do rio. É o que me estimula”, confessa.
Apesar da genialidade deste auto didata, Bez Batti passou por momentos de maior ou menor reconhecimento. Hoje, está em um momento onde sua arte foi redescoberta. O Margs e o Bourbon Country, em Porto Alegre, acolheram seu acervo. Graças ao esforço do Instituto Moreira Salles, através do curador Antônio De Franceschi, que cuidou de sua exposição itinerante, ele viajou por várias cidades brasileiras. Cuidou do transporte especial de mais de cem obras, além de fazer um seguro delas em R$ 1 milhão. O sucesso, porém, não é o que mais deseja o artista. “Eu não queria sucesso. Eu quero ser lembrado depois da morte”, diz.
Em seu refúgio secular, João conta com a companhia da família, de seus animais de estimação, suas pedras e Beethoven. É ao som do gênio da música que algumas das obras são esculpidas. Trata-se, antes de mais nada, de uma seleção. “Se colocar Beethoven ou alguma música erudita, sei que não vou me incomodar. Aos setenta anos, tenho que ser seletivo. Tenho que gostar de poucas coisas”.
E o garoto septuagenário precisa de paz e de todas as suas forças para o trabalho exaustivo de dominar o basalto. O trabalho, misturando força bruta e cuidados cirúrgicos, é o resultado dos sonhos do menino do rio. “Eu sonho acordado. Estou sempre sonhando em descobrir uma escultura nova”, conta. E em um poema de Maria Carpi, solta por inteiro sua emoção de sonhador: “Casos há, porém, que o sonhador continua com tamanho intento, que o sonho lhe adere arrastado ao corpo. E ara e revolve a terra”, lê. Um poema que é a síntese do trabalho deste menino-senhor que se fez gênio, chamado João Bez Batti.