Peças
Les Éphémères...
Por: Éverton Rigatti
29/07/08


O Théâtre du Soleil (não confundir com o circo homônimo) é um grupo formado em 1964, sob o comando da diretora Ariane Mnouchkine, e que é considerado um dos mais importantes do mundo, com sede própria instalada nos arredores de Paris, o Teatro La Cartoucherie. Fazendo pela primeira vez uma turnê pela América do Sul, estiveram em solo gaúcho entre os dias 27 e 30 de Setembro com o espetáculo Les Éphémères, por ocasião da décima quarta edição do Porto Alegre Em Cena.
Em primeiro lugar é preciso explicar que não se trata de uma peça de teatro convencional, mas de uma imersão num mundo teatral diferente, em que atores e público compartilham, durante mais de oito horas, emoções e espaço físico.
Na antessala do local da encenação, em meio à balbúrdia das pessoas que por ali transitam, tenho a primeira surpresa: ali estão instalados os camarins, totalmente abertos e escancarados, onde observo alguns atores que vão fazendo sua maquiagem, enquanto outros estão escolhendo seus figurinos,”fuzilados” por centenas de flashes disparados pelos encantados espectadores, que anseiam registrar o momento inusitado e sublime, revestido de significados. Ao compartilhar com o público aqueles momentos tão íntimos do artista, eles já estão nos dando uma pista do que vem a ser o Théâtre du Soleil: uma grande família. E você está convidado a fazer parte dela pelas próximas horas.
Passando pela antessala chega-se ao teatro propriamente dito, uma espécie de arena cercada por arquibancadas, uma reconstrução perfeita do La Cartoucherie. A sensação que se tem é de se estar no palco, tal a proximidade que a arquibancada proporciona ao espectador.
Antes que comece o espetáculo, a diretora Ariane Mnouchkine explica, em francês, com tradução simultânea, que fora do teatro existem cerca de 200 “desesperados, os sem-ingresso” e que não gostaria de decepcioná-los. Comanda pessoalmente a “operação cata-lugar”e, aos poucos, o que antes eram escadas de acesso se transformam em arquibancadas extras, repletas de pessoas. Gentilmente ela agradece a solidariedade de todos, as luzes se apagam e começa a encenação.
O espetáculo é dividido em duas partes que duram aproximadamente 3 horas e vinte minutos cada. Os diálogos são todos em francês, mas isso não é problema visto que as legendas são projetadas nas paredes. A peça é composta de pequenos fragmentos da história de vida de pessoas comuns, gente como a gente. Temas como loucura, preconceito, amor e perda são tratados de uma forma tão humana e sensível que torna-se impossível, para o espectador, não se envolver e não encontrar a si mesmo em algum dos personagens representados. As atuações são impecáveis e fazem você passar do riso ao choro num instante.
Outro momento que surpreende acontece no intervalo entre as duas partes. O público vai para outro ambiente, onde tem acesso a uma ceia muito especial, criada,preparada e servida pelo elenco da peça. Os atores, que há poucos instantes estavam representando no palco, agora estão atrás do balcão, servindo a refeição para você.
É por essas e outras que ao final do espetáculo o público aplaude, em pé, por quase dez minutos. E o elenco retribui, saindo e voltando para o palco por seis vezes. A emoção está latente. Uma senhora ao meu lado comenta que sai de alma lavada. Também saio assim. E sei que nunca vou esquecer daqueles momentos maravilhosos e quase indescritíveis que ali passei. Momentos que só a arte em seu estado mais puro pode nos proporcionar. Au Revoir, madame Ariane e sua trupe. E vida longa ao Théâtre du Soleil.